SENSAÇÃO ESTRANHA
2 dezembro, 2009 as 10:46 Categoria Brasileirão+ Futebol Nacional
Quando o Potiguar de Mossoró – o meu “Potiguarzão do Coração” – foi Campeão Estadual em 2004, vivi uma das maiores alegrias da minha vida. Até hoje eu comemoro esse título.
Mas vocês não imaginam o que eu sofri nos momentos que antecederam essa histórica conquista.
A final do campeonato foi entre América e Potiguar, com o time da capital jogando pelo empate. O primeiro jogo foi em Mossoró, e o “Time Macho”, como é conhecido o meu time do coração, “sapecou” um categórico 4 a 0 no América. Meus amigos – exceto os americanos, é lógico – que conheciam a minha paixão pelo time mossoroense começaram a me ligar dando os parabéns pelo título, perguntando sobre o churrasco da vitória, querendo ir lá pra casa pra tomar “umas” e eu pedindo calma. O jogo final seria num sábado à noite e a turma de Mossoró prometia invadir Natal. Só uma tragédia sem precedentes tiraria o nosso tão sonhado título. O Potiguar poderia perder por até três gols de diferença.
Na sexta-feira anterior ao jogo, eu estava jogando sinuca na casa do meu amigo Marcelo, americano encarnado, e me encontrei com o seu pai, Seu Eunélio, conselheiro e dirigente do América e brinquei: “Seu Eunélio, esse ano não tem quem tome!”. Aí ele falou na maior tranqüilidade: “Não comemore nada não. Estou vindo agora de uma reunião na sede do América e já está tudo certo. O América vence por 4 a 0 e é campeão”.
Eu comecei a suar frio e não consegui ganhar mais nenhuma partida de sinuca. E olhe que eu até que sou bom de tacada. Também não consegui dormir direito. Aquela conversa de Seu Eunélio não me saía da cabeça.
Conhecendo como eu conheço a pilantragem dos clubes de Natal contra os clubes do interior e ainda mais numa final de campeonato, já contava como certa uma armação pra cima do meu “Potiguarzão do Coração”.
Acordei no sábado um pouco febril e numa ressaca de sono e cerveja desgraçada. Resolvi não ir ao jogo temendo o pior. Minha esposa Maria José e os filhos Isadora, Túlio Filho e Débora, começaram a curtir com a minha cara: “Pense num “cabra frôxo”! Vamos pro jogo “painho”, vamos ver o povo de Mossoró. O Potiguar já é campeão!”.
Mas eu não conseguia me animar. Uma sensação estranha tomava conta de mim e a “suadeira” ia aumentando na medida em que se aproximava a hora daquela partida histórica.
Seis e pouco da noite (o jogo começaria as oito) e de repente minha casa é invadida por um bando de gente de vermelho. Fui arrastado para o estádio.
Incrivelmente, quando a bola começou a rolar eu relaxei um pouco. O Potiguar dominava o jogo completamente, colocou bola na trave, o goleiro do América salvou outras e o primeiro tempo terminou zero a zero. A torcida do alvirrubro mossoroense que havia invadido o “Machadão” como prometera, já começava com os primeiro gritos de “é campeão”. Mas aquela coisa ainda ficava martelando o meu juízo: “A armação tá preparada para o segundo tempo”. E quando o jogo recomeçou, realmente o América partiu para a pressão. O Potiguar se defendia bem, mas o tempo não passava. Quando finalmente chegamos aos trinta e cinco minutos, eu pensei: “Não é possível. Qualquer coisa a partir de agora seria um escândalo sem proporções dentro do futebol mundial”. Quando me virei para abraçar um torcedor que estava ao meu lado e colocar a faixa de campeão que havia comprado na entrada e guardado no bolso da bermuda, o América fez um gol. Guardei a malfadada faixa de novo e me veio mais um pensamento ruim: “Tá vendo? Foi só pegar na faixa que o América fez um gol”.
Mas finalmente essa minha saga sofredora chegou a fim da melhor maneira possível e sem nenhuma “armação”: “POTIGUARZÃO DO CORAÇÃO” CAMPEÃO ESTADUAL DE 2004”. Seu Eunélio tava era de “sacanagem” comigo e a fim de detonar a minha performance na sinuca naquela sexta à noite.
Porque contei essa história agora? Porque também agora, estou me sentindo como há cinco anos, com essa perspectiva de ver o meu “Mengão” Campeão Brasileiro depois de dezessete anos. Simplesmente… estranho. Ou “Muito Estranho”, como naquela música de Dalto. As situações são diferentes em termos de “armações” – embora eu não acredite e nem delire com isso dessa vez -, mas as expectativas são as mesmas.
Lá atrás o sofrimento acabou em felicidade. Vamos ver domingo.
Por tulio 3 comentários
