…E NUNCA MAIS TORCI PELO BRASIL
Por tulio em 24 junho, 2010 as 15:02
Todo ano de Copa do Mundo é a mesma coisa. Eu tenho que me explicar com os parentes, agregados, amigos e conhecidos eventuais porque não torço pela Seleção Brasileira. Lá se vão vinte anos e cinco copas. Em maio de 2006 eu escrevi esse artigo para a Revista Papangu. Pra mim, ele continua atualíssimo. É só acrescentar Dunga como treinador no contexto.
…E NUNCA MAIS TORCI PELO BRASIL
Em 1966 eu tinha cinco anos, e pouco me lembro do que aconteceu na Copa do Mundo daquele ano. Ainda não existia televisão em Mossoró e a imagem que me vem daqueles dias, é a de meus tios bebendo e roendo as unhas ao pé de um rádio “ABC – A Voz de Ouro”. Lembro-me também que teve um dia em que eu estava brincando na calçada de casa, quando papai surgiu coçando a cabeça e balbuciando: “Quebraram a perna de Pelé”. E parece que a Copa acabou por ali mesmo. Não havia mais barulho pelas ruas, acabou-se o foguetório e os meus tios abandonaram o rádio.
Nos anos seguintes eu descobri a paixão pelo futebol e pelo Flamengo. Na Copa de 70, eu já sabia a escalação da Seleção Brasileira de cor e salteado. Aquela foi a Copa da televisão e da redenção de Pelé. Assisti todos os jogos na casa de Seu João Diógenes, um dos poucos que tinha televisão na nossa rua, e comemorei como gente grande a conquista do Tri naquela final histórica contra a Itália. Não podia ouvir “Noventa milhões em ação…” que começava a chorar.
Em 1974 nossa família já havia se mudado para Martins e assistir a Copa foi um tormento. Não só pelo time que não conseguia engrenar como pela péssima qualidade do sinal de televisão. Quando tinha som, não tinha imagem nenhuma. Quando tinha imagem, ainda que só o “vulto”, não tinha som. A solução era baixar todo o volume e colocar um rádio em cima da TV. A nossa seleção, apesar de cheia de craques, chegou para aquela Copa sem uma escalação definida e sofreu para se classificar na primeira fase. Aos trancos e barrancos conseguiu chegar a semifinal, quando foi literalmente atropelada pelo “Carrossel Holandês” de Cruyff e companhia.
Foi por essa época, que surgiu Zico, o meu ídolo maior no futebol. O melhor jogador do mundo pós Pelé. O craque que encantava e que levou o Brasil sem nenhuma dificuldade ao Mundial de 78, na conturbada Argentina daquele período. Aquela Copa já começou com um mau presságio, quando o juiz anulou o gol de Zico nos acréscimos do jogo de estréia contra a Suécia, que nos levaria a vitória e poderia ter evitado o confronto contra os donos da casa na segunda fase. E foi então que tivemos a, até hoje, muito mal explicada goleada dos “hermanos” sobre o Peru, que nos tirou da final. Dessa Copa nos restou uma séria contusão em Zico, que o afastou dos gramados por nove meses e o malfadado título de “Campeão Moral”, infeliz idéia do finado Capitão Coutinho.
Em 82… Ah! 82. A minha maior frustração no futebol, desde que eu me entendo por gente. Leandro, Luisinho, Oscar, Júnior, Cerezzo, Falcão, Sócrates, Zico e Éder. Um grupo que se não era melhor, era igual ao de 70 em qualidade. Tinha minhas restrições quanto a Valdir Perez e Serginho, duas obras da teimosia do mestre Telê Santana. Nesse ano, eu estava convalescendo de uma tuberculose e não podia beber – ingerir bebidas alcoólicas, para ser mais específico. Mas participei de todas as festas após as vitórias, até que aconteceu a “Tragédia de Sarriá”. Demorei a me recuperar daquele baque. Não da tuberculose, cujo tratamento durava apenas seis meses, mas da derrota para a Itália que até hoje me provoca pesadelos.
Nas eliminatórias para a Copa de 1986, o treinador da Seleção era Evaristo Macedo que não conseguia acertar a equipe e pela primeira vez na história dos Mundiais, corríamos sérios riscos de ficar de fora. A solução foi mandar buscar Telê lá nas Arábias, pra ver se ele dava um jeito na nossa Seleção. O “mestre” chegou e resolveu bancar a convocação dos veteranos de 82. Zico, com problemas sérios em um dos joelhos, foi para a Copa no sacrifício, com apenas 50% de suas condições físicas.
Aí veio o jogo contra a França, quando ele entrou com o placar de 1 a 1 e no seu primeiro lance fez um passe de gênio para Branco que sofreu o pênalti que se convertido nos colocaria a um passo da fase seguinte da competição. Zico, mesmo tendo acabado de entrar no jogo, foi o único que se apresentou para a cobrança. E perdeu. Muitos imbecis até hoje creditam a perda daquela Copa ao nosso “Galinho de Quintino”. Esquecem eles que na decisão por pênaltis ele converteu o seu, enquanto que Sócrates e Júlio César desperdiçaram.
A partir daí, foi decretado, através de rito sumário, o fim do “futebol arte” em privilégio de um esdrúxulo “futebol de resultados” e nunca mais consegui torcer pelo Brasil. Lazaroni, a geração Dunga de 90 e o que veio a seguir, foram demais para mim. A safadeza da alta cúpula da CBF, a arrogância dos treinadores que assumem a Seleção, as convocações de alguns jogadores para favorecer empresários ligados ao treinador e a dirigentes da CBF, a “babação” e o nacionalismo exacerbado de grande parte de nossa imprensa esportiva – em especial dos palhaços da Rede Globo – e ainda o fato de não conseguir engolir Zagallo, também contribuíram para esse meu desencanto.
E não me venham com argumentos infantilóides do tipo: quem não torce pelo Brasil não é brasileiro, não é patriota e outras baboseiras do gênero. No século XVIII o escritor inglês Samuel Johnson já escrevera: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. E eu acrescentaria: E TAMBÉM DOS IDIOTAS.
Tags:CONTEXTO, COPA DE MUNDO DE 82, COPA DO MUNDO DE 86, ERA DUNGA, FALCAO, ITÁLIA, NUNCA MAIS TORCI PELO BRASIL, OPINIÃO, PATRIOTISMO, REDE GLOBO, seleção brasileira, ZAGALLO, zico
Categoria Copa do Mundo 2010+ Futebol Internacional

6 Comentários for …E NUNCA MAIS TORCI PELO BRASIL
1.
Sergio | junho 24th, 2010 as 19:03
Marco Tulio,
Vou expor o que penso sobre a seleção.
Não achei graça no tetra nem no penta. O futebol tem sido cada vez pior nas copas desde 90.
Após 1991, quando Globo parece ter iniciado uma espécie de parceria com CBF, lançando o jingle “Eu sei que vou…” que representava uma nova fase do futebol brasileiro, entendo que a seleção ficou mais estranha ainda.
De um modo geral o futebol ficou muito feio. Houve uma supervalorização dos atacantes em detrimento dos meias e agora parece ser a era dos zagueiros e goleiros.
Quem diria que a Argentina, que eu não gostava, é a única a jogar um futebol de toque de bola e ultrapassagens, contando com um meia clássico, Veron e com um camisa 10 autêntico, o Messi.Porém, temos que reconhecer que os argentinos não têm ganhado nada de expressivo, em termos de seleção, a não ser medalhas olímpicas e campeonatos juvenis.
Por outro lado, a seleção brasileira atual não me desperta abuso como aquela dos “Ronaldos” e afins.
Ao menos, ao contrário de suas antecessoras, essa seleção parece reconhecer que não é brilhante, como todas as de 90 para cá.
Nao sou nenhum admirador de Dunga, tampouco de sua forma de se dirigir à imprensa. Porém, a mídia também comete abusos e agora parece estar mais cautelosa com seleção até porque não dá para ficar usando o time como pano de fundo pra ganhar dinheiro o tempo todo. O Dunga blindou mais os jogadores.
No campo, vivemos de lampejos individuais de nossos melhores jogadores, como Kaká, Luis Fabiano e Robinho e da nossa boa defesa composta por Lúcio, Juan e Julio César.
Enfim, não temos sido brilhantes, mas, tirando a Argentina, que até pouco tempo cometia falhas terríveis na defesa, também não vejo ninguém melhor que o Brasil.
Afinal, que copinha cheia de times retranqueiros que só jogam quando estão prestes a serem eliminados. Times preocupados com correria e excessivamente individualistas. É comum ver um jogador deixar de dar um passe para outro melhor colocado.
Enfim, para mim essa seleção não me desperta grandes amores, mas ao menos não me desperta raiva como algumas anteriores, as quais eram tratadas como melhores de todos os tempos e nunca apresentaram futebol convincente.
2.
Falcao Neto | junho 28th, 2010 as 21:10
Fala Marco,
Essa é a sua cara :
http://colunistas.ig.com.br/copa2010flaviogomes/2010/06/28/copinha-11/
Quanto a dunga ser meu heroi, vou aguardar o SBT comprar o campeonato brasileiro.
3.
Sergio | julho 3rd, 2010 as 2:20
Pois é… deu Holanda.
Agora, muita gente vai falar que faltou Ronaldinho Gaúcho, Ganso, etc.
Interessante, que o povo logo esquece Ronaldinho Gaúcho protagonizou dois vexames olímpicos e uma Copa merecidamente perdida para a França de Zidane e Henry.
Acho que a sociedade brasileira devia refletir.
Primeiro, parar com essa mania de achar que o Brasil é melhor, mesmo sem entender bulhufas de futebol.
A realidade é que desde 82/86 que o Brasil não apresenta um futebol de encher os olhos. Isso tem a ver com a velocidade do jogo? Sim, tem, mas não podemos esquecer que temos jogadores de seleçao que não acertam um passe de dois metros totalmente desmarcados. Jogadores que nao sabem fazer uma invertida de bola ou sequer bater uma falta.Isso passa pela mentalidade mercantilista do futebol atual, que seleciona os mais fortes fisicamente para poder negociar com a Europa. Colocar a culpa do futebol exdrúxulo de hoje apenas na preparaçao física é uma falácia.
Por outro lado, ainda pelo lado da necessária reflexao da sociedade brasileira, estive na África do Sul e o que vi por lá foi de estarrecer, principalmente os ignóbeis que pensam que lá só tem pobreza. Um país com uma estrutura espetacular, nao apenas de estádios,mas de aeroportos, vias públicas largas, sem buracos, com uma frota de automóveis e uma limpeza urbana de fazerem inveja.
Enquanto isso, tem um bando de idiotas que acha que o Brasil, além de jogar o melhor futebol, tem uma estrutura boa pra fazer copa.
O que tem é muito dinheiro pra fazer e deve ter muito gatuno doido pra passar a mäo.
Abre o olho, Brasil!
Voltando ao time, a verdade é que é fácil culpar o Dunga, que realmente está longe de ser um ídolo, mas o povo precisa se reinventar e parar de ficar indo na onda de uma parcela mau caráter da imprensa que fica alimentando rivalidade contra argentinos, enxergar a própria ignorancia e ver que nossos vizinhos ao menos cultivam o gosto pela leitura, sao bem nutridos e ainda compram automóveis mais baratos do que nós. Finalmente, independentemente do resultado contra a Alemanha, nossos hermanos têm, há mais de dez anos, jogado um futebol muito melhor que o nosso. Perdendo ou ganhando da Alemanha daqui a pouco, os Argentinos ainda tentam dar algum espetáculo.
Que boa parte do povo reflita e deixe de ser ignorante!
4.
denise | julho 3rd, 2010 as 19:05
Bom, pra mim, a copa já deu o que tinha que dar. Queria que a Africa do Sul tivesse avançado pelo menos até as quartas de final, para que o povo africano tivesse essa alegria. Não deu. Depois torci muito para Gana passar do Uruguai, porque queria ver um time africano na semi. Não deu. Torci para o Brasil ganhar da Holanda, porque embora não merecesse ganhar a copa, não merecia perder para aquele time. Queria ter visto Brasil e Argentina, e ia torcer muito para Argentina.. Mas não deu também. A argentina saiu hoje. Me sinto orfã de Maradona, que na minha opinão era a graça dessa copa. Me diverti mais com ele do que com os jogos, a maioria, chatérrimos. Agora pra mim sobram nulidades. A Espanha que até joga um futebol bonitinho, mas nunca vi tão ruim de finalização. Sentirei falta de Messi, de passes legais e das jogadas bem elaboradas. Restou o Uruguai com muita raça e pouca bola. A Holanda que vai me supreender muito se passar do Uruguai. E a Alemanha com aquele futebol de força e aquele tecnico seboso que come meleca. Perdi o gosto. Pra mim tanto faz. Ganhe quem ganhar, pra mim é irrelevante. Tô com o Sergio mais uma vez, a graça dessa copa se foi com nossos Hermanos. Tô triste. Tão triste que acho que vou aposentar até mesmo meus comentários sobre futebol. Acho que vou trocar receitas nos blogs da vida. Um abraço pra vcs. Denise.
5.
Sergio | julho 3rd, 2010 as 23:11
Pois é… deu Alemanha.
A Alemanha ressurgiu após uma derrota para a Sérvia e uma vitória magra contra Gana.
A sorte germânica pareceu mudar quando o árbitro uruguaio equivocadamente não deu o gol legítimo de Frank Lampard, fazendo a Inglaterra parar sua reação em um lance que parece uma ironia do destino quando lembramos de 1966.
Todos sabiam que a zaga argentina era pouco confiável e que os contra-ataques eram a principal arma dessa Alemanha cosmopolita.
Crônica de uma morte anunciada. Lembrou Rocky Balboa todo engomado enfrentando aquele gigante soviético no filme Rocky IV.
A Argentina bem que tentou, mas logo logo foi um passeio alemão.
Uma pena que jogadores como Messi, Tevez, Milito, Veron, entre outros não estarão nas finais. A Copa perdeu o brilho, apesar dos méritos dos semifinalistas.
Particularmente, estou bastante contagiado com o ressurgimento do Uruguai, que até então parecia um bicho papão de estórias de nossos pais e avós.
Para a Argentina, faltou um zagueiro como Lúcio e um goleiro ao menos como Gomes.
Para o Brasil, falta a identidade perdida nos já longínquos anos 80.
Que pena que não dá para juntar o meio-campo argentino com a seleção brasileira.
Agora, tudo poderá acontecer.
A Alemanha virou favorita, mas conseguirá repetir suas últimas atuações diante de uma defesa mais sólida?
Quem diria, a Alemanha chegou mais uma vez…
6.
Antonio Falcao Neto | julho 5th, 2010 as 12:51
Fala Marco,
Mais uma boa leitura :
http://colunistas.ig.com.br/copa2010flaviogomes/2010/07/05/5-de-julho/
E ta na hora de atualizar o blog, né primo vei…
Vlw.
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